
O medo
A coragem só é exaltada porque o medroso é subjugado.
Assim como a raiva, o medo é um sentimento socialmente proibitivo e isso faz com que coloquemos, inconscientemente, camadas de camuflagem por cima dos nossos muitos medos, para que eles não apareçam nem mesmo para nós, para que possamos suportar ser, para que não sejamos um fracasso ambulante, para que ainda haja esperança.
O amor incondicional é uma utopia. Vivenciamos na verdade o amor condicionado, e ainda assim, precisamos dele, assim como de aceitação e aprovação. Onde há regras não há espaço para a liberdade total do ser, para a expressão livre dos sentimentos e vazão dos instintos. Sim, somos civilizados e isso tem um preço (a neurose), por mais que não contabilizemos.

O custo de viver em sociedade é a repressão de boa parte da nossa naturalidade e espontaneidade. O medo, antes de mais nada, nos protege e é uma reação natural a um estímulo que já conhecemos e nos foi extremamente desagradável. O medo do desconhecido só existe por uma generalização, por uma aproximação ou por uma confusão da nossa parte.
O medo patológico ou a fobia é uma desvirtuamento do medo natural, é um canal de expressão de outras questões neuróticas que está sendo usado por não encontrar nas vias originais permissão para fluir. Pode também ser uma forma insconsciente de angariar atenção, como acontece com as crianças. Pode ser o extravasamento de uma ansiedade exacerbada, por uma preocupação exagerada em relação ao futuro, normalmente ligada a outras questões que não dizem respeito ao objeto (admitido) do medo. E porque acontece esse desvio? Geralmente porque a admissão do medo original vai de encontro com valores fundamentais ou com questões inadmissíveis, como por exemplo ter medo de quem amamos.
A consequência dessas camuflagens e desvios é que resolver o medo se torna uma tarefa complexa. Vale a pena ressaltar que o mais complexo e humano dos nossos medos é a ansiedade, ou seja, o medo do futuro. Qualifico como humano porque foge à anatomia do medo animal, à instintualidade, e assim quero dizer que foge à concepção do medo primitivo, aquele que preserva a vida. O medo humano patológico e a ansiedade não preservam a vida, mas sim a sobrevivência social.
A ansiedade e a fobia, assim como algumas das suas consequências ou variações (síndrome do pânico, hipocondria, crise de ansiedade) são as nossas formas de lidar com medos proibitivos e outras questões neuróticas, não esclarecidas, encobertas, camufladas ou desviadas